Renato Tavares

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Informação

Na palavra informação, é possível perceber nas três palavras/ideias que a compõe aquilo que acontece quando alguém obtém a informação: IN - FORMAR - AÇÃO.
Informação, portanto, é um ato de se formar para uma ação. Aquele que se informa, está se capacitando para uma ação.
Essa reflexão me ocorreu por acompanhar nos últimos dias o processo de campanha eleitoral que atravessa o Brasil, nos últimos dois meses.
Estamos a uma semana da eleição. No próximo domingo, iremos decidir o que queremos para os próximos quatro anos: elegeremos deputados, senadores, governadores e o/a presidente.
No início da campanha, ocorreu a morte do candidato Eduardo Campos e sua sucessão por Marina Silva. As primeiras pesquisas indicavam a vitória da acreana, e as derrotas de Dilma do PT e de Aécio do PSDB. Então, as campanhas dos supostos dois derrotados partiram para o ataque e desconstrução da imagem de Marina do PSB.
Não estou refletindo sobre se acho correto ou não essa estratégia de avance político. Estou refletindo sobre o processo de IN-FORMAR para a AÇÃO.
Como é possível saber, VEJA e ISTO É são duas revistas oposicionistas ao governo do PT, portanto, fonte de informação para os militantes do PSDB. CARTA CAPITAL E BRASIL 247 são duas revistas que não se cansam de defender o governo do PT, portanto, fonte de informação para os militantes do PT.
O inevitável aconteceu.
Acompanho, estarrecido, alguns de meus amigos psdbistas ferrenhos citando BRASIL 247 para mostrar que Marina não é isso que aparenta ser. Mais assustado fiquei com amigos meus petistas citando VEJA para desconstruir a imagem de Marina
O inevitável aconteceu.
A dita esquerda partindo para a ação após se informar nos manuais de informação da dita direita, a dita direita partindo para a ação após se informar nos manuais de informação da dita esquerda.
O inevitável aconteceu.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O ovo ou a galinha

"Nem tanto à terra, tem tanto ao mar".
Um tema que merece uma reflexão é o da relação entre o indivíduo e o meio em que vive.
Alguns defendem a ideia de que o meio corrompe o indivíduo, ou como dizem, "filho de peixe, peixinho é". Defendem a ideia de que dependendo das circunstâncias em que uma pessoa é criada, ela já está determinada a ser de uma determinada forma, a agir de certo modo.
Outros, porém, defendem a ideia de que o indivíduo é quem é o único responsável por aquilo que lhe acontece, o indivíduo é quem cria o meio, ou como dizem, "o que mais importa é o que você fará com aquilo que fizeram com você". Defendem a ideia que você é o único responsável pelo seu destino.
"Nem tanto à terra, nem tanto ao mar".
Na Amazônia, um dos meios de transportes mais utilizados é a canoa, principalmente em curtas distâncias. Uma das primeiras lições que lhe ensinam é saber remar, igualmente, dos dois lados, caso contrário, a canoa não avança, mas fica dando voltas circulares.
Por isso, nem o meio corrompe, totalmente, o indivíduo, nem o indivíduo é tão independente assim do meio. O indivíduo é o único responsável por aquilo que lhe acontece, o meio não tem poder absoluto sobre ele. Porém, também, o indivíduo está inserido em um meio, que influencia suas decisões.
"Nem tanto à terra, nem tanto ao mar".

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ressurreição da Ética

Nos noticiários dos últimos dias, o assunto de ordem é o "Julgamento do Mensalão".
A sociedade brasileira acompanha com muita atenção o desfecho e as posições assumidas por cada um dos ministros, que de lá do STF, demonstra quando algum dos acusados é responsável ou não por aquilo de que o acusam.
Neste processo, duas figuras se destacam, tanto no bate-papo do cotidiano, quanto nas mensagens que circulam na rede. Um como o herói, ou outro como o anti-herói, um como o justiceiro, o outro como o conivente, um como aquele que venceu na vida, através do esforço pessoal, pelo estudo e trabalho, o outro que, embora tenha se esforçado, chegou onde chegou, não tanto meritoriamente como o herói.
Boa parte da sociedade brasileira, é claro, está preocupada com a provável queda do Palmeiras ou com o título de seu rival no Mundial Interclubes. Porém, esta mesma parte da sociedade que se preocupa com esse esporte que desperta paixão, também tem acompanhado, atônita, o modus operandi daqueles que se diziam defensores da ética e da moral na política.
A sociedade brasileira anseia pela ressurreição da ética na Vida Pública, principalmente quando este público envolve o bem comum. A sociedade brasileira quer dar razão a Aristóteles e Platão, e não a Maquiavel, quando o assunto é Política. Quer ver a punição dos responsáveis pelo mensalão, seja ele o de Brasília ou o de Minas, sem deixar, é claro, de acompanhar o desfecho da reta final do Brasileirão de Futebol.  

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Rejaniel de Jesus dos Santos

Provavelmente se eu tivesse cruzado com Rejaniel numa das esquinas de São Paulo, mesmo que durante o dia, eu ficaria receoso, observaria seus movimentos, tomaria toda precaução e, desconfiando de algo, não duvidaria, correria ou aceleraria o carro, mesmo que corresse o risco de causar um acidente. Eu teria medo.
Porém, após ouvir atentamente, por quase uma hora, Rejaniel contar sua história, de como fora educado por sua mãe, de como é sua moradia embaixo de um viaduto em São Paulo, de como é sua refeição, do que faz todos os dias, de como se portou ao encontrar 20 mil reais, de como se sentia feliz por ter feito aquilo que sua mãe lhe ensinara, eu emocionado reconheci: é uma das maiores almas humanas que tive o privilégio de ouvir.
Rejaniel falou que, provavelmente, em menos de um mês já não teria mais nenhum centavo dos 20 mil reais. Rejaniel ressaltou que sua mãe sempre lhe dissera que não ficasse com o que não é seu. Rejaniel falara de como se sentia satisfeito ao fazer o que é certo.
Três coisas me impressionaram: ele fazia bastante tempo que não se sentava à mesa para uma refeição; ele tinha conviccção de que estava fazendo a coisa certa ao devolver o dinheiro; ele estava satisfeito, por pelo menos uma vez na vida, ter servido de exemplo para seu filho.
Queria ter escutado sua mulher falar, mas como aprendi, "as palavras convencem, os exemplos arrastam".
Nesses dias em que penso que o ser humano não tem mais jeito, ao duvidar da lealdade de nossa gente, ao questionar o futuro do Brasil, fico de boca aberta, confesso meu pecado e agradeço por ter tido a oportunidade de conhecer Rejaniel. Quantos serão que ainda há no Brasil?! Quanto ainda terei o prazer de conhecer?! 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dois Irmãos

José e Simão eram dois irmãos que desde pequenos tinham suas desavenças, mas como bons irmãos, eles se reconciliavam e seguiam a vida.
O pai dos dois morrera há dois anos e deixou como herança uma fazenda no interior de Ipixuna. Os dois decidiram tocar a vida sem dividirem o terreno em partes iguais, concordaram apenas acertarem um "rumo" que demarcaria a propriedade de cada um, mas não fizeram cerca. O gado sim, este foi dividido e uma marca foi agregada ao gado de José para diferenciá-lo do de Simão.
As mulheres dos dois eram amigas, comadres. Sempre que podiam, marcavam uma reunião de família: ora o jantar era na casa de uma, ora na casa de outra. Nos domingos, o churrasco era por conta dos irmãos.
José começara a perceber que seu gado estava sumindo.
Bom, vale a pena dizer que na região, algumas onças atacavam os animais e o que sobrava era devorado pelos gaviões.
José começara a perceber que seu gado estava sumindo. Buscava pelos pastos onde estavam os restos mortais de seu gado, mas não os encontrava. Sempre se queixava das onças. "Um dia eu acabo com as onças". José se deu conta que mesmo que as onças matassem seu gado, deveriam deixar as carcaças: "como onça enterra o que sobra do gado". José percebeu, também, que apenas seu gado diminuía, o de seu irmão não. Começou a se estranhar como o irmão, até que deixou de comparecer aos churrascos dominicais: "é um gavião", dizia em alto e bom som, José, a todos os que quisessem escutá-lo.
Foi então que Simão decidiu colocar cerca ao redor de sua propriedade. "Para evitar problemas", justificava. Porém, José começou a queixar-se de que "a onça" estava roubando parte de sua terra, além de ter dado festa às suas custas. "Não tem jeito, desde pequeno é assim, nunca vai mudar, é uma onça disfarçada de cabrito".
José não conhecia Hobbes, mas de qualquer forma, compartilhava de sua Filosofia.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A boa Religião

Ricardo, um menino exemplar, sofria por causa da opção religiosa de sua família: eram umbandistas.
Ainda menino, com 8 anos de idade, ouviu de um colega, cuja família era da Igreja da Restauração, que sua religião era coisa má, que ele não era amigo de Deus.
- Mamãe, por que a gente não muda de religião? É mais fácil ser cristão. Não aguento mais ser acusado de mal, pelos meus amigos.
- Meu filho, o mais importante em uma religião não é como acontece o culto, mas como você se comporta fora do templo, na vida cotidiana.
- Mas mamãe, quase todos os dias, meus amigos cristãos acusam minha religião de ser coisa má, de ser coisa do demônio, de ser coisa do diabo. Eles se cumprimentam desejando a paz entre si, mas me excluem.
- Meu filho, você sempre que pode vai aos rituais, sabe que niguém invoca demônio nenhum ali, sabe que apenas fazemos oferendas a aquelas entidades que acreditamos serem nossas protetoras. Você gostava de nossa religião quando pequeno, agora, com 15 anos, querendo mudar de religião. Olha, religião é uma coisa pessoal, você deve escolher a sua, ou não precisa optar por nenhuma, mas o mais importante é você respeitar, saber olhar a diferença, ser uma pessoa boa, ajudar os que precisam.
- É mamãe, eu sei disso, mas não aguento mais a malhação: todos os dias, os cristão lá de minha escola ficam zombando de minha crença, dizem que é coisa do mal, colocam a culpa de tudo o que dá errado em mim, por causa de minha religião.
- Eu sei filho, mas aprenda a respeitá-lo. Você os respeita?!
- Sim mamãe. Apesar de achar bem estranho isso que eles afirmam ter acontecido: que o Pai do Céu enviou seu filho, e que o mesmo morreu em oferenda, para a remissão dos pecados da humanidade.
- No cotidiano meu filho, no cotidiano é que percebemos se uma religião é boa ou não: quando seus adeptos respeitam o diferente, quando seus adeptos ajudam quem precisa, aí sim, sabemos se são realmente do bem. Quanto aos dogmas e celebrações, são apenas a tentativa humana de querer expressar em palavras o que só pode ser expresso em ações.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Apesar de tudo, a esperança deve sobreviver


Se há uma coisa que nunca pode morrer, ou como diz o ditado deve ser a última morrer, é a esperança.
Indignados, mas, sobretudo cansados, a esperança parece querer deixar-nos.
Os noticiários mostram mais esquemas de corrupção, que dessa vez parece atingir aquele que até então, era considerado o último baluarte da moralidade na política, da ética na vida pública: o senador de Goiás.
Talvez porque seus adversários estejam aproveitando o momento para demonstrar que ninguém está imune ao vírus da corrupção, talvez porque ele esteja totalmente atolado nas lamas do esquema. O certo é que as denúncias parecem não dar razão para acreditar na esperança.

Por outro lado, nós os cristãos e soube que também os judeus, comemoram na última semana a grande semana da Libertação, da Vitória da vida sobre a morte. A semana passada mostrou que apesar da desesperança, do cansaço, é preciso seguir e não desistir jamais de crer, de esperar: tempos bons parecem surgir.
Apesar do cansaço, da indignação, é preciso seguir, continuar acreditando, esperando: tempos melhores parecem aproximar-se.
Se mais um que parecia ser modelo parece cair, como pareceu cair um Partido que outrora servia de modelos, a nós que resistimos o cansaço e a indignação nos resta a certeza de que o mal parece que vai ser cortado pela raiz, nos resta a certeza de que com um a menos dias melhores virão, nos resta a certeza de que por mais cansados, indignados que estejamos, os modelos são apenas modelos: servem para serem imitados quando são exemplos de bem, e para se fazer o contrário deles, quando não são bons. Apesar desses modelos, ruins ou bons, a esperança deve sobreviver.


sábado, 24 de dezembro de 2011

Ser Cristão.

"Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10, 10b).
Esses dias li um interessante livro, que apesar da pretensão do título, demonstrava como se formou o conceito Cristo, contrário à ideia de Jesus, analisando a moral cristã, desde sua origem no Judaísmo, passando pelos Evangelhos, culminando a História do Cristianismo. O autor afirmava que o único cristão que existiu morreu na cruz.
Não sou teólogo, ser contra o qual este autor disparava inúmeras críticas ácidas, porém, tento ser cristão.
Quando percorremos a História do Cristianismo, percebemos que a conclusão de que o único cristão morrera na cruz não se sustenta.
Primeiro: a boa notícia começa com a pregação da ressurreição de Jesus de Nazaré.
Segundo: a História do Cristianismo mostra a vida de inúmeros cristãos.
O cristianismo não é uma religião que prega a morte,  mas uma religião que prega a vida. Jesus, de quem nos falam os Evangelhos, foi alguém que constantemente falou da vida, ensinou como deve ser a vida humana. Ser cristão é ser alguém que almeja, acima de tudo, a vida.
É claro que ao longo da História do Cristianismo observamos algumas "teologias" contrárias à vida; algumas pessoas, que se diziam cristãs, contrárias à vida. Porém, este tipo de religião não é cristianismo, mas algo diferente. Pelo menos diferente do que vejo no cristianismo.
É sempre importante ler autores que criticam o modo de ser cristão. Pessoas de Fé não tem  medo da crítica, ainda mais quando esta crítica, fundamentada em alguns exemplos da História, denuncia a falta de compromisso com a vida em abundância, denunciam falsos conceitos de pretenso cristianismo.
A crítica é sempre boa, porque leva à reflexão: será que estou vivendo um cristianismo verdadeiro? será que meu modo de ser cristão conduz à vida em abundância?
Por isso, gosto muito destas pessoas que se autointitulam o Anticristo. Ao ler/ouvir o que têm a dizer, sou convidado a refletir sobre minha maneira de ser cristão, e, principalmente, perguntar-me se estou tendo vida, e vida em abundância.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sentido da Vida

- E se aquilo em que nós cremos fosse uma invenção? 
Assim, Miguel começava a reflexão acerca da fé cristã com o grupo de sete discípulos.
Carlos arregalou bastante os olhos, não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Como alguém que estava ali para instruir discípulos na fé cristã poderia levantar tamanha suspeita?! Se o instrutor não tivesse certeza daquilo que ensinava, por que continuar sendo um instrutor da fé cristã?!
Marcos ficou bastante intrigado com a indagação e, de repente, o sono que tinha desapareceu completamente e ele ouvia atentamente.
Um a um. Os sete, com alguma perplexidade, ouviam a instrução.
- O cristianismo é aquilo que dá sentido à vida humana, dá sentido à minha vida. Tenho que reconhecer que o cristianismo não é uma preparação para uma possível vida futura, mas um modelo de vida atual. Devo viver aqui e hoje como Jesus viveu. Isso significa compreender o sentido da vida humana, compreender porque sou cristão.
Marcos pensava consigo que se não houvesse uma vida futura, uma vida de salvação, não tinha sentido ser cristão. Tanto sacrifício para nada. Carlos ouvia, mais ainda levantava dúvida sobre a fé do instrutor.
- Não faz sentido ser cristão e abdicar da vida atual, por isso disse o Mestre: "Eu vim para que tenham vida e vida em abundância". Ser cristão é viver plenamente a vida que Deus nos dá.
Assim, transcorria a aula e cada um dos sete estava inquieto, impaciente, ouvindo com muito receio, percebendo se haviam sinais externos da loucura.
- Se encontrarem o corpo de Jesus na tumba, nada mudará. Se isso em que cremos for uma invenção de Paulo ou dos primeiros discípulos, nada mudará. Só tenho certeza de que se for uma invenção, nunca ouvi estória mais linda. Por isso, decidi que esta história daria sentido a minha vida.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um mundo diferente

"Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles" (Lc. 6, 31).
Quando nos perguntamos quem de verdade é uma pessoa heroica, quem é alguém que deve ser admirado, que pode servir de exemplo, quase sempre pensamos em alguém que se destaca em alguma profissão, algum esporte, alguma atividade. Quase nunca pensamos em alguém discreto.
Aqueles que mais contribuem para o bem estar dos outros, sobretudo daqueles que mais necessitam, são pessoas discretas que tratam seus semelhantes como gostariam de ser tratadas, por isso, fazem o bem independentemente de credo. Se quisermos aprender como ser verdadeiramente humano, é preciso ir a alguma organização de bem e observar tais pessoas.
Se essas pessoas servissem de modelo, se estudássemos suas vidas, se imitássemos o que elas são, nós viveríamos em um mundo muito melhor: um lugar onde as pessoas, mesmo as apressadas, seriam gentis, agradáveis; um lugar onde sempre escutaríamos um por favor, um muito obrigado (a), um como você é legal!
Com certeza, um mundo em que as pessoas tratassem as outras como gostariam de ser tratadas, seria um mundo muito melhor. Quando observamos a vida das pessoas de bem, observamos que este mundo é possível. Porém, para tratar bem o outro (a), para mudar o mundo, é preciso tratar bem a si mesmo (a), mudar a si mesmo (a). Por isso, creio que um mundo melhor, é um lugar onde as pessoas cuidam mais de si.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Ética cotidiana

Rita está estressada.
Nem bem tinha começado a jornada de trabalho naquela terça, Rita já descera do ônibus estressada, com vontade de esganar o primeiro que atravessasse por seu caminho. Estava naqueles dias, véspera do acontecimento natural que alivia as mulheres.
Era quase 8h, e já tinha passado, apertada, em pé, dentro de um ônibus lotado, pelo engarrafamento da Antonio Carlos. Estava ansiosa por chegar à padaria de sempre, pedir um café e seguir o trajeto, rumo ao escritório, no andar 23, daquele imenso edifício onde passaria todo o restante do dia, que mal começara.
Já na Augusto de Lima, teve enfrentar o engarrafamento de passageiros que desciam no mesmo ponto que ela. Sua tensão só aumentava.
- ... se alguém ousar paralisar ou interromper minha caminhada apressada, eu juro que dou um empurrão com todas as minhas forças... -
Quando seguia pela São Paulo, o fluxo de pessoas só aumentava. O pior, era que aquelas pessoas que caminhavam devagar teimavam em seguir pelo meio da calçada, interrompendo o ritmo da caminhada de Rita, sem falar naqueles que caminham dois a dois, três a três, fechando a via para quem caminha mais rápido que o grupo de amigos.
No cruzamento da Amazonas, o semáforo para pedestres tornara-se amarelo, então Rita apressou o passo para não ter de ficar parada por uma longa hora de espera até que esverdeasse novamente o sinal. Naquele ritmo apressado, Rita não percebeu um senhor que também atravessava apressado, em sentido contrário, e nem com tanta força assim, foi de encontro ao senhor e derrubou o pobre idoso no chão, espalhando pela via todos os papéis que ele portava.
- Me desculpa senhora, por ter provocado isso, por estar tão desorientado em plena manhã.
Não  importava a quantidade de carros que buzinavam alvorotados. Não importava a quantidade de pessoas que observavam. Rita, apenas olhava para o semblante daquele homem de cabelo branco, sentia em si uma imensa vergonha pelo que aprontara. Sobretudo, escutava, como num eco entre montanhas: - me desculpa senhora, por ter provocado isso.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Vida, um constante discernimento

O maior objetivo do ser humano é viver a vida intensamente.
Uma das características humana é a consciência. Ser humano é ser consciente.
Em cada pensamento, em cada atitude, em cada ação, a experiência da consciência deve estar presente, da origem à consumação, para que a mesma seja uma experiência de vida humana.
Consciência é assegurar-se de que a decisão tomada é a melhor, de que será vivida intensamente. Consciência é autenticidade. Estar convicto de que por este caminho faz-se a melhor experiência da vida, embora nem sempre o resultado seja o esperado. Porém, estar certo de que se fez o melhor.
Algumas dicas orientam a tomada de uma sábia decisão:
+ ouvir o coração (para onde estou inclinado).
+ medir com a razão (observar as prováveis consequencias dessa decisão).
+ viver intensamente.
O constante discernimento, por meio da dialética razão-coração, certamente conduzirá a uma sábia decisão. Uma decisão que proporcionará o desfrute intenso da vida, único objetivo de uma vida verdadeiramente humana.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Descanso, um exercício de discernimento

O ÓCIO é tão importante quanto o negÓCIO.
Quanto mais uma pessoa adentra no mundo dos negócios, nas atividades profissionais, nas atividades educacionais, mais esta pessoa corre o risco de perder-se em inúmeras atividades, a ponto de privar-se de uma das mais fundamentais fontes de humanização: o descanso.
A palavra negócio significa literalmente negação do ócio. Ócio pode ser entendido como descanso.
Descansar, relaxar, é muito importante ao longo de uma vida: muitas pessoas se alienam tanto no trabalho, nos estudos, que perdem a oportunidade de incríveis aventuras de desalienação, ou de pausa para relaxar. Quanto mais uma pessoa se desgasta, mais ela precisa de recuperação.
Estar em casa, descansar, dormir, assistir à televisão, ler um bom livro, brincar. Todas são interessantes meios de repouso, de humanização.
Um meio excelente é viajar, conhecer novos lugares, pessoas, culturas. Um meio de expandir os horizontes, de observar que o mundo é muito maior do que imaginamos.  Viajar é uma saída de si para estar com o outro. Viajar é um meio de conhecer o todo do qual individualmente fazemos parte.
Se uma pessoa nega o ócio constantemente ela está fadada a perder-se, a alienar-se, a não-humanizar-se, pois o ócio é tão importante para uma vida verdadeiramente humana quanto o negócio.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Riqueza, um exercício de discernimento

"Quanto melhor é adquirir a sabedoria do que o ouro! E mais excelente, adquirir a prudência do que a prata!" (Provérbios 16, 16).
Nesta passagem do livro dos Provérbios (um interessante compêndio de diretrizes) é encontrada uma ideia que não condiz, se lida literalmente, com o que pensa boa parte das pessoas: dinheiro não traz felicidade.
Para entender o que afirmam grande parte das pessoas consideradas sábias, que dinheiro não traz felicidade, é preciso seguir uma preciosa dica de Aristóteles: distinguir meios de fins. Se alguém pensar que dinheiro é um fim em sí, então realmente pode-se afirmar com certeza que dinheiro não traz felicidade. Se considerar o dinheiro como um meio (essa é a função econômica do dinheiro) então é possível compreender o provérbio.
Dinheiro (o ouro, a prata) são apenas meios que se bem empregados auxiliam a busca humana pela felicidade. Com este meio, algumas viagens que ampliam horizontes podem ser feitas, alguns cursos que ajudam na aquisição de sabedoria podem ser realizados, alguns bens que proporcionam conforto suficiente podem ser adquiridos, algumas pessoas, instituições podem ser ajudadas financeiramente.
Riqueza é muito maior que dinheiro, bens, que são apenas meios. Para uma pessoa chegar à riqueza, que também é meio para a felicidade, ela precisa investir em sabedoria, prática e teórica. Sabedoria conduz à prudência que é meio necessário para um bom discernimento. Daí o versículo 16, do Provérbio 16.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sabedoria, um exercício de discernimento

"Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e o apartar-se do mal é o entendimento" (Jó 28, 28).
Nesta passagem do livro de Jó (um dos mais intrigantes da Bíblia) há duas recomendações que exigem um constante exercício de discernimento: quando uma pessoa está no temor do Senhor? quando está diante do mal para que possa fugir dele?
Discernir significa pautar a vida por valores.
Valores são diretrizes que orientam uma vida.
Todas as pessoas absorvem para si alguns valores inegociáveis: ser honesto, ser trabalhador. Por meio desses valores ela orienta suas ações, suas decisões. Se determinadas ações não transgridem seus valores então esta ação é boa, caso contrário, é má. Assim, toda pessoa possui alguns princípios inegociáveis que pautam sua maneira de ser, de agir.
Cabe a pergunta: este valor assumido pelas pessoas é bom ou mau?
Outras perguntas solucionam este dilema ético:  este valor torna esta pessoa feliz? este valor lhe agrega vida? este valor faz outras pessoas felizes? este valor agrega vida aos outros?
Se todas as respostas forem sim, então pode-se afirmar com certeza que se trata de um valor bom, por consequencia ético, caso contrário, diria que um desvalor.
Fazer-me feliz. Dar-me vida. Fazer os outros felizes. Dar-lhes vida. São orientações preciosas para saber se uma determinada ação, uma determinada atitude é moralmente boa. São orientações preciosas para o constante exercício do discernimento que conduz à sabedoria, à felicidade.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Felicidade, um exercício de discernimento

Uma das constantes buscas humanas é a busca da felicidade.
"Ser feliz" é repetido por quase todos os credos que tentam responder à pergunta fundamental do motivo da vida humana. "Ser feliz" é repetido por quase todas as pessoas que são indagadas sobre seu maior desejo. Ser humano é querer sempre ser feliz. "Toda ação humana visa à felicidade" - não há como não se lembrar de Aristóteles nesse momento de reflexão .
Porém, um dos enigmas mais difíceis de ser resolvido é o da pergunta: o que faz um ser humano feliz?
Muitas respostas para o enigma da felicidade são apenas respostas parciais: dinheiro me faz feliz; a companhia dos amigos me faz feliz; viajar me faz feliz; fazer parte deste grupo me faz feliz; trabalhar nesta empresa me faz feliz. Todos são apenas meios que conduzem ao único fim: ser feliz.
Para ser feliz, uma pessoa precisa de muito discernimento. Precisa  saber quando está diante de algo que a deixa realmente feliz ou quando está diante de um momento fugaz de felicidade. Mais ainda, precisa saber se aquele momento prazeroso é um momento de real felicidade, ou apenas uma fantasia apetitosa de algo prejudicial.
O constante discernimento é um meio eficaz de experimentar uma vida realmente humana: uma vida que, embora cheia de momentos adversos,  também tem instantes de alegria, de satisfação, que se bem discernidos, vivenciados, podem ser o meio que conduz à felicidade.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Paixão


Uma vida verdadeiramente humana precisa ser vivenciada com todo o ardor da paixão. Algumas pessoas passam pela terra, convivem com a família, exercem uma atividade profissional, sem aquele ímpeto necessário para uma vida humana. São consideradas mortas-vivas. Parece que o coração dessas pessoas deixou de funcionar, deixou de bombear vida.
Sem o calor que o sangue proporciona ao corpo, à alma, difícil experimentar paixão pelo que se é, pelo que se faz.
É claro que, retomando as dicas de Pascal, razão e coração precisam estar em um diálogo constante, do contrário, as pessoas seriam apenas limitadas. Talvez por esse motivo ainda sejam encontradas em terras latinas, pessoas sem paixão.
A Paixão é o tempero que dá o gosto necessário à vida, à profissão.
Um ser humano que queira exercer da melhor forma sua atividade profissional precisa exercê-la com paixão. Uma pessoa que está discernindo seu projeto de vida precisa discerni-lo com paixão. Todos precisam ser apaixonados pelo que são, pelo que fazem, pelo que sonham, pelo que almejam. Sem paixão, o fracasso será o anunciado resultado.
Fazer tudo da melhor forma possível. Escutar o coração. Escutar a razão. Estas máximas resumem bem as atitudes necessárias para uma pessoa ser mais profissional, ser mais humana. É preciso agregar ainda a PAIXÃO.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Razão e Coração


Um simpático pensador na História da Filosofia é Blaise Pascal (1623-62). A mais famosa frase atribuída a este francês é "O Coração tem razões que a própria razão desconhece".
Repetida romanticamente por casais de apaixonados, esta máxima precisa ser contextualizada para ser compreendida. Para tanto, o fragmento 282 dos Pensamentos ajuda entender melhor o que Pascal chama de razão e coração:
"Conhecemos a verdade, não só pela razão, mas também pelo coração; é desta última maneira que conhecemos os princípios, e é em vão que o raciocínio, que deles não participa, tentar combatê-los."
Com toda certeza, Pascal ajuda na compreensão de alguns aspectos da natureza humana que precisa ser levado em consideração quando alguém está diante de alguma decisão profissional, estudantil, vocacional. Este pensador auxilia a reflexão ética.
Quando na vida, alguém só se deixa conduzir pela razão, que Pascal chama de espírito de geometria, só compreende uma parcela limitada da vida, da natureza humana. A razão precisa do socorro do coração.
Quando na vida, alguém só se deixa conduzir pelos impulsos, pelas emoções, não está compreendendo o que é coração, que Pascal chama de espírito de finura, e que gosto de traduzi-lo por intuição. O coração conduz ao conhecimento pleno da vida.
É preciso saber em que momento deve prevalecer o coração, em que momento a razão. Uma decisão ética precisa ser tomada com o coração e com a razão. Um ser humano é razão e coração. O coração não se opõe à razão, mas auxilia esta quando ela se esbarra em seus limites. A razão sem o coração é desumana, o coração sem a razão é inumano.
Assim, um ser humano que se deparar na vida com dilemas éticos necessita do auxílio da razão e também do coração se quiser ser feliz.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Decisão Ética


...Não vejo a hora de chegar em casa, tomar um banho, jantar, relaxar, dormir. Amanhã, ainda tenho um dia de trabalho. O problema é este ônibus: sempre lotado!...
Roberto saiu do escritório em que trabalha, ou melhor, de onde trabalha, pois é garoto de encomendas, por volta das 17 horas. Como sempre está muito cansado ao terminar o expediente, não gosta de ficar em pé, por 2 horas, no ônibus que o conduz para casa. Por isso, sempre caminhava 2 km, para chegar à Av. Amazonas, esquina com Av. do Contorno, onde subia, no ainda vazio, 1207, que o conduziria a sua casa na Região Norte da capital mineira.
Naquela quinta, Roberto estava esgotado. Além de passar toda a manhã na escola onde estudava o segundo ano do ensino médio, ainda percorrera, por toda a tarde, muitas agências bancárias, escritórios, repartições, do centro da cidade, levando contas, encomendas, presentes.
Este relato aconteceu no período de natal: tempo em que, além das tarefas nos bancos e repartições, Roberto ainda levava os presentes para os clientes do escritório de Advocacia no qual trabalhava. Pensava que o décimo terceiro compensaria tamanho desgaste físico.
Quando passou pelo centro de Belo Horizonte, pessoas subiam, pessoas se acomodavam, pessoas se esmagavam, no 1207. Pessoas e presentes natalinos. Roberto estava sentado na segunda cadeira, do lado direito do corredor. Aproveitou e fingiu dormir, pois, embora no auge da saúde, com seus 17 anos, estava cansado e, andara 2 km para não ter de ir em pé, durante seu retorno para casa.
Nesse momento, uma senhora idosa estava em pé ao lado do jovem Roberto, que então fingia dormir.
- Essa juventude de hoje!!! (dizia uma mulher que também estava em pé).
- Moça, no meu tempo, a gente levantava até quando subia mulheres, que dirá idosas! (dizia um homem cinquentão que também estava em pé).
... Por que essa velha foi ficar em pé, logo perto de mim? Tanto lugar no ônibus para ela se posicionar, mas logo aqui!!! Por que as pessoas lá da frente não cederam lugar para ela? Caminho 2 km para viajar sentado e, 15 minutos depois tenho de ficar em pé!!!... (Assim refletia Roberto, que ainda fingia dormir).
- Ainda fingem dormir! Menino jovem, saudável, cheio de vida! Isso é falta de educação! Também, os jovens de hoje não tem pais, não tem escola...
Roberto estava chateado, indignado com a Prefeitura de BH, pois antes os idosos ficavam na dianteira dos ônibus, enquanto hoje, podem circular por todo o ônibus. Roberto estava revoltado com aquela idosa, pois poderia ter vindo ao centro em outra hora.
Mesmo assim, o educado rapaz de 17 anos, que estava no auge da saúde, levantou-se, fez todo o ritual da simpatia, cedeu gentilmente o seu aconchegante espaço para aquela cansada senhora.
...Ainda sou educado! Graças a Deus tenho pai e mãe! Estudo numa boa escola! Tenho um bom emprego!...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

MAGIS


Este termo latino significa mais, o melhor, sempre mais. Em outras palavras, pode-se dizer: excelência.
A vida humana é carregada de sonhos e projetos. A esperança está no horizonte da vida humana. Quando uma pessoa deixa de sonhar, de idealizar, de projetar, ela está tornando-se uma pessoa limitada.
O projeto de uma vida, depois de ser sonhado, idealizado, precisa ser formulado e, então, são construídas as estratégias que tornarão realidade aquela idealização.
Toda realidade começa por uma idealidade.
Quando uma pessoa deseja chegar a algum lugar, ela constrói, primeiro mentalmente, todas as etapas que precisam ser seguidas para chegar à realização do sonho almejado.
Sonho, idealização, projeção, construção, realização. Todas são etapas necessárias para a construção de um projeto de vida, de uma carreira profissional, de uma vida plenamente humana.
Magis, que significa sempre o melhor, que prefiro chamá-lo de excelência, é o tempero imprescindível na idealização, construção e realização de um projeto.
Sempre mais, fazer o melhor, ser excelente, superar. Todas estas palavras traduzem a atitude necessária para a concretização de um projeto, seja ele um projeto de vida, seja ele um projeto profissional.
Sempre o magis! Assim, a vida vivida será uma vida autêntica.