Renato Tavares

Marcadores

terça-feira, 14 de junho de 2011

Ética cotidiana

Rita está estressada.
Nem bem tinha começado a jornada de trabalho naquela terça, Rita já descera do ônibus estressada, com vontade de esganar o primeiro que atravessasse por seu caminho. Estava naqueles dias, véspera do acontecimento natural que alivia as mulheres.
Era quase 8h, e já tinha passado, apertada, em pé, dentro de um ônibus lotado, pelo engarrafamento da Antonio Carlos. Estava ansiosa por chegar à padaria de sempre, pedir um café e seguir o trajeto, rumo ao escritório, no andar 23, daquele imenso edifício onde passaria todo o restante do dia, que mal começara.
Já na Augusto de Lima, teve enfrentar o engarrafamento de passageiros que desciam no mesmo ponto que ela. Sua tensão só aumentava.
- ... se alguém ousar paralisar ou interromper minha caminhada apressada, eu juro que dou um empurrão com todas as minhas forças... -
Quando seguia pela São Paulo, o fluxo de pessoas só aumentava. O pior, era que aquelas pessoas que caminhavam devagar teimavam em seguir pelo meio da calçada, interrompendo o ritmo da caminhada de Rita, sem falar naqueles que caminham dois a dois, três a três, fechando a via para quem caminha mais rápido que o grupo de amigos.
No cruzamento da Amazonas, o semáforo para pedestres tornara-se amarelo, então Rita apressou o passo para não ter de ficar parada por uma longa hora de espera até que esverdeasse novamente o sinal. Naquele ritmo apressado, Rita não percebeu um senhor que também atravessava apressado, em sentido contrário, e nem com tanta força assim, foi de encontro ao senhor e derrubou o pobre idoso no chão, espalhando pela via todos os papéis que ele portava.
- Me desculpa senhora, por ter provocado isso, por estar tão desorientado em plena manhã.
Não  importava a quantidade de carros que buzinavam alvorotados. Não importava a quantidade de pessoas que observavam. Rita, apenas olhava para o semblante daquele homem de cabelo branco, sentia em si uma imensa vergonha pelo que aprontara. Sobretudo, escutava, como num eco entre montanhas: - me desculpa senhora, por ter provocado isso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário