Alice exigia de seu pai, que era escritor, um romance no qual ela fosse a personagem principal.
Todas as vezes que seu pai terminava seu romance, Alice já perguntava se o próximo seria o seu. Isso, desde os 12 anos de idade.
Aurélio, pai de Alice, sempre dizia que escrever um romance era questão de inspiração, trama bem desenvolvida, objetivos definidos. Também dizia que não escolhia suas personagens, mas que as mesmas se revelavam durante a composição. Por isso, fazia 15 anos que tentava, mas não conseguia escrever algo no qual Alice fosse a personagem.
- Você não gosta de mim. Todos já foram personagens de seu livro, inclusive o Dudu.
Eduardo, que tinha 20 anos, era o irmão mais novo de Alice. Desde seu nascimento, Alice sentia que seu mundo se transferia para ele. O afeto dos familiares, os melhores presentes das datas comemorativas. Tudo era de Eduardo, inclusive a inspiração do pai.
- Pai, definitivamente, você não gosta de mim.
Aurélio sentia-se endividado com Alice. Era verdade que ele colocara Eduardo como personagem de um de seus romances, mas não era o Dudu, tratava-se de outro Eduardo. Era verdade que nunca pensara no nome Alice para um de seus romances, mas ele nunca tinha autonomia sobre quem entrava em suas histórias. As personagens se apresentavam, se desenvolviam e sumiam. Aurélio não tinha controle sobre nada.
- Alice, eu te amo demais, demais, demais... Um dia irei escrever sobre uma menina chamada Alice, mas preciso de inspiração.
- Deixa papai, já estou acostumada com essa desculpa. Pode gravar. Todas as vezes que eu cobrar um livro em minha homenagem, é só apertar play. Não precisa gastar energia para inventar alguma desculpa. Sei que não sou fonte de inspiração.

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