Renato Tavares

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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Reflexões Estéticas

Tinha, então, 19 anos, estava na fila do consulado inglês para retirar meu passaporte com o visto de estudante, pois em poucos dias, viajaria para Londres, onde iria estudar inglês por um ano. Iria residir em uma família londrina, estudar em um importante centro de ensino.
Para a contextualização deste relato não há necessidade de maior especificação.
Era por volta das 10h, apesar de tanto tempo passado, não me esqueço do momento. Por estar à beira-mar, sentia no rosto o cheiro da brisa oceânica. Terminara de lanchar. Estava satisfeito, preocupado, pois me diziam que quase sempre recusam estudantes brasileiros na grande ilha, apesar as inúmeras recomendações.
De repente, observando ao meu lado, mirei atentamente, tomei consciência de algo simplesmente extraordinário. Meu coração tranquilizou, minhas vistas relaxaram, não ouvia mais nada, não cheirava mais nada, apenas observava, ou melhor, contemplava.
Era de um contorno perfeito, nada demais, nada de menos, como diriam os antigos, estava na justa medida. Apesar de circunferente, lembrava um losango.
Nada sobrava, tudo bastava.
Não muito alto, não muito baixo, de exata altura.  
Não era nem preto, nem branco, muito menos de outra cor.
A geometria não me ajuda expressar, muito menos a geografia, a física.
Era a vida em sua plenitude.  Células se uniram tão delicadamente, tão engenhosamente, para formar aquilo que vi, que diria que a evolução tinha alcançado sua máxima expressão. Se fosse um experto em citologia, conseguiria expressar aquilo que era a obra prima da vida humana, porém não o sou.
Como expressar? Através da música? Não dá, apenas sei sambar.
Se fosse um profeta, eu sairia pelo mundo falando do que vi, do que vivi. Correria o risco das pessoas não me entenderem, tentarem me calar. Entregaria minha vida pelo que vivi, pelo que vi. De nada adiantaria, não me entenderiam e poderiam deturpar minha experiência em rituais que de nada adiantariam.
Só mesmo escrever o que experimentei, mas há algum tempo escrevo, e não consigo me expressar. As palavras são insuficientes para lograr o que desejo.
Encontro no Silêncio o melhor meio de seguir experimentando aquilo que vi e vivi, naquela manhã, quando tinha 19 anos.
Nem na viagem para a Inglaterra, nos estudos na Alemanha, nas experiências na China, nos passeios pelas Américas e Áfricas, na vida no Brasil, nos espetáculos de arte, nas cerimônias religiosas, nos vinhos, nas conversas, consegui experimentar novamente aquilo que vi e vivi, quando observando ao meu lado, na fila do consulado inglês, mirei atentamente, tomei consciência de algo simplesmente extraordinário. 

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